Efeito Lava-Jato acirra guerra pelo espólio de Lula

A seis meses da votação de outubro, a única certeza em relação ao pleito é que seu maior protagonista será, inevitavelmente, a Operação Lava-Jato. Foi ela que encarcerou o ex-presidente Lula, líder de todas as pesquisas, e atingiu em cheio os principais nomes do PSDB. Seus efeitos ainda atordoam os presidenciáveis e seus partidos, tornando ainda mais instável a bolsa de apostas eleitoral. Esta newsletter sobre as ELEIÇÕES 2018 – que se inicia hoje e terá edições sempre às sextas-feiras – traça um panorama do quadro político que começa a se delinear após a prisão do petista. E que promete capítulos ainda repletos de reviravoltas.

Líder nas pesquisas, o deputado Jair Bolsonaro conseguiu como ninguém catalisar o antipetismo radical que emergiu após a eleição de 2014 e a debacle econômica provocada pela ex-presidente Dilma Rousseff. O que ninguém ainda consegue responder é se sua capacidade de angariar apoiadores pelas redes sociais será suficiente para garantir sua chegada ao segundo turno, uma vez que lhe faltam estrutura partidária, tempo de televisão e um projeto que vá além do tão bradado “prende e arrebenta”.

Até o momento, Ciro Gomes é o grande beneficiário do afastamento de Lula do processo eleitoral. Sua intenção de votos dobra nas pesquisas quando o petista é retirado da lista de candidatos. Mas o fato de não ter ido a São Bernardo nos dias que antecederam a prisão o distanciaram do resto da esquerda e hoje uma eventual união das candidaturas do PT, PCdoB e PSOL surge como principal fator de risco para o ex-governador cearense.

Embora figure em segundo lugar nas pesquisas, Marina Silva viu sua popularidade declinar continuamente desde a derrota em 2014. Após perder aliados e ver seu novo partido reduzido a uma turma de fiéis seguidores, Marina ainda pena para explicar em que campo se colocará.

Egressa do PT, a ex-senadora foi alvo de duros ataques de Dilma Rousseff em 2014 e acabou apoiando Aécio Neves no segundo turno. Dois anos depois, defendeu o impeachment de Dilma e, no lançamento de sua candidatura, horas antes de Lula se entregar à polícia, afirmou que a prisão do ex-presidente mostra que a “lei é para todos”. Se isso afasta Marina da esquerda, seu discurso contrário à privatização da Eletrobras e à independência do Banco Central tampouco abre espaço entre os liberais.

Na centro-direita, a principal ameaça é a mesma: a pluralidade de concorrentes no mesmo campo. Há mais de um ano, o ex-governador Geraldo Alckmin joga parado, na expectativa de que por inércia esses votos caiam em seu colo – como ocorreu com todos os tucanos que disputaram desde 1994. Desta vez, no entanto, a dificuldade de crescimento do paulista levou ao surgimento das pré-candidaturas de Álvaro Dias, Rodrigo Maia e Henrique Meirelles , dando ânimo até ao presidente Michel Temer. Se mantidas, elas podem dividir o eleitorado e fazer com que pela primeira vez desde 1989 os tucanos fiquem fora do segundo turno.

Na quarta-feira, Alckmin recebeu o melhor presente que um candidato poderia ter neste ano, com o pedido da Procuradoria-Geral da República, atendido pelo Superior Tribunal de Justiça, de que as investigações sobre caixa dois em suas campanhas se restrinjam à esfera eleitoral. Assim, livrou-se de responder por crime comum.

Nos próximos meses, o tucano precisará se dedicar mais se quiser mostrar-se o ponto de equilíbrio em meio às posições extremadas de Jair Bolsonaro e de parte da esquerda. Suas duas declarações recentes de maior exposição – uma elogiando a polêmica declaração do comandante do Exército às vésperas do julgamento de Lula e outra dizendo que petistas alvo de tiros estavam “colhendo o que plantaram” – pouco ajudam a cumprir esse papel. Até porque a fantasia de antipetista radical já tem Bolsonaro como dono.

Se já sobravam dúvidas em relação aos candidatos colocados, novas surgiram com a filiação de Joaquim Barbosa ao PSB. O ex-ministro do STF ainda precisará angariar a simpatia dos colegas de partido – especialmente os governadores –, mas já é visto como a grande novidade da eleição. A avaliação dominante é que ele tem potencial de receber apoio de lulistas, por sua origem humilde, e de antipetistas, por sua atuação no julgamento do Mensalão, além de ser um desaguadouro natural dos eleitores que buscam uma renovação completa na política.

Nos próximos meses, o inevitável e salutar escrutínio da campanha eleitoral deve desnudar os vícios e as verdadeiras convicções dos principais candidatos. A tendência, como sempre ocorre, é que os eleitores se aglutinem entre os atores mais competitivos de cada campo. Através desta newsletter, estaremos juntos nesta jornada que só se encerrará em outubro, quando as urnas falarão.

Paulo Celso Pereira

Diretor da Sucursal de Brasília (O GLOBO)

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