Eleições 2018

Bolsonaro vira alvo de adversários


Imediatamente após sair da eleição de 2014 como deputado federal mais bem votado do Rio, Jair Bolsonaro lançou-se à Presidência com o objetivo de representar a direita radical. Inicialmente, o ex-militar animou aqueles que não se viam representados de forma competitiva em eleições desde a redemocratização. Ao longo da crise política que atingiu os governos Dilma Rousseff e Michel Temer e destroçou os maiores partidos, Bolsonaro conseguiu também apoio dos eleitores que decidiram protestar contra “tudo o que está aí”. A despeito de estar no sétimo mandato de deputado federal, quase sempre por partidos símbolos do fisiologismo e da corrupção, conseguiu se tornar o principal nome antissistema.

Nos últimos meses, a aposta reinante no meio político era que o militar da reserva murcharia tão logo suas incoerências surgissem. Elas surgiram, por exemplo, com a demonstração de que sempre votou contra a liberalização da economia, que hoje diz pregar. Mas o eleitor bolsonarista parece não ter se importado. Veio então a tese de que, quando se mostrasse que o candidato carregava vários dos vícios de seus colegas parlamentares, ele cairia. O GLOBO revelou que ele empregou vários parentes em seu gabinete e no de seus filhos, e a Folha de S. Paulo mostrou que ele recebia auxílio-moradia mesmo tendo imóvel em Brasília. Nada de Bolsonaro cair.

A expectativa ainda presente é de que, quando ele tiver de apresentar seu plano de governo, o vazio de suas propostas fique evidente. Bolsonaro, no entanto, já optou pelo caminho mais fácil: simplesmente se nega a responder o que pensa sobre temas centrais, como as reformas da Previdência e tributária , e disse que pode não comparecer aos debates. Ao menos por enquanto, seu eleitor parece seguir sem se preocupar com isso. Diante da liderança intocada dele nas pesquisas, seus principais adversários decidiram partir para o ataque nesta semana.

Ciro Gomes, que precisa garantir sua proeminência na disputa antes que o PT lance o substituto de Lula, tentou se tornar o grande opositor do ex-capitão. Igualmente falastrão, chamou-o de “boçal”, “maluco” e “um câncer a ser extirpado”, tentando se colocar como o representante do campo democrático com maior capacidade de enfrentá-lo.

De temperamento oposto, Geraldo Alckmin foi mais polido e focou no eleitor que tradicionalmente vota nos tucanos – e que, em boa medida, migrou para Bolsonaro. Por isso, chamou o deputado para a briga na pauta mais candente para a direita: a segurança pública. E ainda lembrou o alinhamento entre Bolsonaro e o PT no parlamento.

Embora frequente, a comparação de Bolsonaro com Donald Trump é torta. Ambos são outsiders, ambos se beneficiam do sentimento antipolítico, ambos são boquirrotos. Mas as semelhanças não vão muito além disso. Trump era um empresário famoso, rico, e, mais importante, tornou-se candidato dentro da estrutura do Partido Republicano, em um sistema eleitoral bipartidário – o que fazia com que ele tivesse apenas uma adversária, pouco popular, diga-se de passagem.

Hoje, Bolsonaro tem a garantia de apoio apenas de seu minúsculo PSL. Se não angariar mais parceiros, irá desaparecer da televisão na campanha eleitoral – mesmo risco que corre Marina Silva. No Brasil, um país continental, o tempo na propaganda eleitoral gratuita sempre se mostrou determinante. Soma-se a isso o fato de lhe faltar estrutura partidária país afora para fazer campanha e distribuir material.

Por outro lado, nenhum candidato hoje consegue demonstrações de apoio espontâneas como Bolsonaro. Seus seguidores fiéis revelam um empenho há muito não visto na política brasileira. Mas as eleições majoritárias foram, nos últimos anos, convertidas em uma disputa pelo centro político. Tão importante quanto a popularidade era não ter rejeição alta.

A crescente polarização da sociedade parece ter mudado a dinâmica, que não se resume mais a uma disputa entre a centro-direita tucana e a centro-esquerda petista. Até agora Bolsonaro tem conseguido atravessar incólume os obstáculos que apareceram, mas a rota até o Planalto é longa.

Fonte: O GLOBO

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