No sertão do seu Genaro

Como dizia um velho anúncio da TV, o tempo passa, o tempo voa, e contrariamente ao anúncio eu digo que a vida nem sempre vai correndo numa boa.

Mas entre um atropelo e outro, entre altos e baixos, ela vai correndo. O importante para todos é que o saldo mantenha-se positivo no balanço geral, porque o que interessa mesmo é viver uma vida com relativa saúde, este é o bem maior que o criador nos lega nesta caminhada. Penso nisso quando lembro do tempo em que conheci seu Genaro. “Eita veio duro da gôta”! Isso já faz uns dez anos, e olha que naquele tempo ele já tinha oitenta e seis primaveras.

Nestas minhas andanças pelo sertão, eu estava a passear no meio da feira de Largo da Quixabeira, atrás de comprar rapadura boa, macasada, queijo-qualho do dia e farinha sergipana. Foi quando passando pela porta do velho ainda cedo da manhã, pedi-lhe uma informação onde encontraria as iguarias da feira, e ele prontamente me acompanhou até o local. Acabei comprando mais umas pitombas, umas jabuticabas e um pilão de baraúna, madeira dura que nem ferro. Neste interstício de tempo, o calor do sol já tinha subido e eu deixara o jipe empoeirado no posto de gasolina. Acabei levando minhas coisas pra casa de seu Genaro – que me acolheu com aquela hospitalidade sertaneja. E ali, dona Odete, sua esposa, já me servira uma água e um cafezinho torrado em casa. Seu Genaro só toma café como nos velhos tempos, torrado e batido no pilão. O resultado como eu pude ver, é de um sabor sem igual; confesso que nuca tomei um café tão gostoso.

E entre uma conversa e outra esse foi nosso primeiro contato. Uma das coisas que ele me falara na época, era de que nunca tinha ido ao médico nem a dentista. Seu corpo, dizia ele, não tinha tempo pra adoecer; de dia era na roça, e de noite fazendo menino. Teve quinze filhos com dona Odete, dos quais sobreviveram doze. E nesse tempo ainda costumava dar suas escapadas na surdina, gostava de umas aventuras e tomar uns pileques sem prejudicar a vida de ninguém; era um artífice na arte de viver. E quando o corpo fraqueja um pouco, se tratava com as ervas dos caboclos; e quanto a seus dentes, ele sempre fez sua higiene bucal usando juá, o que conservou relativamente sua arcada dentária até sua avançada idade.

Ouvindo dele essas coisas, pudemos concluir de que na verdade o sertanejo é um forte, como sentenciou Euclides da Cunha quando teve contato com este povo. E que na riqueza da flora das caatingas; no frio das noites límpidas em contraste ao calor escaldante de seus dias; na qualha fresca do leite de suas vacas e cabras; no algodão e na lã de suas ovelhas; nos silos de seus grãos, e nas melancias e jerimuns plantados ao derredor das palmas e imbuzeiros, sobreviveu um povo que no dizer de Cunha, é a única raça que se pode achar no Brasil, ou que se pode dizer verdadeiramente brasileira.

Ao despedir-me naquele dia da casa de seu Genaro (da qual me senti um verdadeiro invasor), ao cumprimentá-lo na porta ele me disse que só veio uma vez na capital, justificando a distância e também o fato dele ser meio ruim de largar seu torrão. Mas disse que por lá, lhe ofereceram uma água de coco na praia; e ele recusou dizendo: – ô mulé, tu acha que eu vou ficar aqui enchendo minha barriga d’água? Nem ficar olhando pra esse açude sem fim de água salgada? E dona Odete retrucou: – Deixa de conversa mole, ô veio… Tu tá é todo afoito com essas novilhas bonitas passeando de biquíni pela praia. E ele respondeu: – Quem dera ser da mocidade de hoje! Pra umas coisas o tempo tá ruim, mas pra outras, tá é muito melhor mulé!

Autor: Jasson Ferreira Lima

 

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