O que mudou no São João

Por: Tasso Franco

O São João é a maior manifestação da cultura popular nordestina. Na Bahia, vários municípios promovem festas juninas grandiosas alguns dos quais com ajuda financeira das prefeituras, dos governos do estado e federal e mais patrocinadores de empresas públicas e privadas. Mas, nem sempre foi assim. Até a década de 1970, antes do boom da música axé, os festejos juninos concentrados basicamente no interior eram organizados pelas comunidades, com alguma ajuda das prefeituras, limitando-se ao tradicional – o casamento da roça, a fogueira, o forró, balões, foguetes, espadas e as brincadeiras e simpatias.

Destacavam-se, entre os mais animados festejos baianos, os realizados em Senhor do Bonfim, Cachoeira, Cruz das Almas, Rio Real e no distrito de São José, em Feira de Santana. Salvador nunca teve bom São João e a cidade “fica vazia” (como se diz no popular) com uma debandada de parte de sua população para o interior. Há pessoas que trabalham o ano todo esperando o São João para visitar parentes nos municípios e participar dos festejos. Essa é uma tradição cinqüentenária, pelo menos.

Desde a fundação da Bahiatursa, órgão oficial de turismo do Estado, em 1968, que o estado passou a beneficiar alguns municípios com verbas de ajuda aos festejos juninos. E, obviamente, entrou a componente política no processo expandindo-se os São Joões para outros sítios, muitos dos quais pegaram a carona visando o lúdico e as urnas, mas que não tinham tradições juninas tão visíveis. Ademais, como não havia dinheiro (como não há até hoje) para contemplar a todos, selecionavam-se alguns para dar os benefícios. Este ano serão 50 privilegiados.

A partir dos anos 1980 com a explosão da música axé e uma visibilidade maior dos conjuntos nacionais de forró, diferenciados dos tradicionais trios nordestinos – sanfoneiro, zabumbeiro e triângulo – com bandas mais estruturadas, dançarinas e metais as prefeituras passaram a investir nesses segmentos modificando e muito os festejos tradicionais. Lembro, já na década de 1990, um São João em Serrinha com Elba Ramalho, Raio da Cilibrina e Caciques do Nordeste completamente fora de sintonia com a tradição, um shozão em praça pública.

A Bahiatursa, na época de Paulo Gaudenzi, fez um esforço enorme para transformar Cachoeira num pólo junino a exemplo de Caruaru, em Pernambuco, e Campina Grande, na Paraíba. Em parte, tinha tudo a ver, pois havia o cenário natural da cidade à beira do Paraguaçu e era uma das poucas cidades do interior da Bahia com alguma infraestrutura turística. Mas, faltou à população de Cachoeira incorporar o espírito junino e essa concepção não foi adiante.

Quem já foi a um São João em Campina Grande e/ou Caruaru sabe o que representa esse espírito junino. Essas duas cidades se vestem de São João nesta época do ano, tudo gira em torno da festa, há uma mobilização nas escolas, nos bairros, nos hotéis, nos restaurantes, mesclando a atividade da tradição junina com a econômica. Cachoeira não teve esse espírito e, anos depois, veio pairar essa vontade em Amargosa.

A Bahia nunca teve uma cidade competitiva como Campina Grande e Caruaru em termos de São João. Hoje, o governo do Estado faz um re-esforço em adotar o São João como uma de suas marcas na atividade turística. Usa uma estratégia adequada ao privilegiar Salvador, Ilhéus, Lençóis e Porto Seguro porque, embora não tenham festejos significativos, possuem infraestrutura hoteleira especialmente, Salvador e Porto Seguro. O problema é que essas duas cidades não se “vestem de São João” não têm o “espírito” junino e dependem das verbas oficiais e dos showzões.

No dia em que entrar um novo governo que não adote essa postura acabou-se. Ou seja, hoje, só para fazer um comparativo e os leitores entenderem melhor o que falo, Campina Grande e Caruru, assim como Senhor do Bonfim e São José em menores dimensões, com governo e/ou sem governo promovem os festejos em grande estilo porque há tradição. A mesma coisa acontece com o Carnaval de Salvador que caminha com suas próprias pernas, até impondo uma ajuda oficial dos governos.

Claro que é louvável a ação governamental visando dar uma identidade ao São João da Bahia e ajudar a atividade turística. Mas, como não temos uma Campina Grande e/ou uma Caruaru, e Salvador não se presta a esse papel, não está na sua cultura, e também é impossível trabalhar uma ajuda para os 417 municípios, a cidade que conseguir incorporar a “veste junina” poderá, em futuro, desde que se organize nessa direção, e haja infraestrutura hoteleira se beneficiar dessa ação governamental e depois caminhar com suas próprias pernas.

Caso contrário, vamos continuar assistindo um monte de “shozões” sempre dependentes das verbas governamentais. E isso é lá São João pelo amor de Deus!
Publicação na Tribuna da Bahia

 

Comente esta matéria