‘Se a natureza não se encarregar de tirar esse óleo, pelo visto ninguém vai’, diz pescador

População que vive da pesca artesanal se diz esquecida e Bahia decreta emergência; para especialista, ‘governo acordou tarde’ para o problema

Ana Lucia Azevedo

15/10/2019 – 04:30

A Praia de Poças, em Conde, no litoral norte da Bahia, costuma ser lembrada pelas piscinas naturais limpíssimas que lhe dão nome e a abundância de mariscos, corais, lagostas e o espichado, um caranguejo de carne saborosa praticamente só encontrado por lá

A cerca de 180 quilômetros de Salvador e cercada por manguezais, Poças não é tão conhecida quanto a Praia do Forte, mas foi tão atingida quanto esta pelo óleo .

No domingo (13), pescadores caminhavam desolados pela areia suja de óleo, que chegou na sexta-feira, e ainda se acumula por toda a extensão da praia. Poças é um microcosmo do desastre que atinge 2.200 quilômetros de litoral, em nove estados do Nordeste.

O governo da Bahia decretou ontem estado de emergência para facilitar a liberação de recursos para os municípios atingidos. Mas, no vasto litoral baiano, ajuda demora a chegar a lugares como Poças.

— Ninguém vem limpar o óleo, estamos esquecidos. Os recifes de corais, os bancos de lagostas e os mariscos foram atingidos. O cheiro de óleo está forte e vemos as manchas à beira-mar. Estamos preocupados com o nosso futuro — diz o pescador Janielson Oliveira de Souza, de 39 anos, a vida toda passada em Poças.

Como quase todo mundo ali, Souza vive da pesca e do turismo. São 700 pescadores profissionais cadastrados e muitos, como Souza, dependem também dos turistas que vão lá atraídos pela beleza da praia, seus recifes e manguezais. O óleo coloca tudo isso em risco.

O espichado (Plagusia depressa), por exemplo, vive nos recifes e sofreu em cheio o impacto do óleo, acumulado sobre eles, conta Souza. Uma das atrações do lugar é catar mariscos e crustáceos à noite.

Por isso, mesmo a Lua cheia, como a do domingo passado, costuma trazer alegria para Poças. As noites enluaradas são ótimas para “mariscar”, caminhar pela areia em busca de mariscos e crustáceos. Na lua cheia deste domingo ninguém estava na praia. Só o óleo.

— O óleo castigou os bichinhos, o espichado, a lagosta, estão todos sofrendo. Não podemos pegar os espichados sujos. Nossa preocupação é imensa, dependemos disso para viver. Se a natureza não se encarregar de tirar esse óleo, pelo visto ninguém vai tirar — lamenta o pescador.

O professor de biologia Miguel Accioly, especialista em gestão costeira da Universidade Federal da Bahia (UFBA), acompanha os derrame de óleo de perto e está particularmente preocupado com a situação dos pescadores artesanais, como os de Poças.

Ele observa que ninguém sabe ainda a dimensão do derramamento, mas lamenta a demora do governo federal em articular uma resposta.

— O governo federal acordou tarde para o problema. É como ver o fogo num prédio, não acionar o alarme e só fazer isso depois das chamas. Recebemos muitas demandas de pescadores que haviam recebido treinamento há anos, na época da criação do plano de contingência, e não entendiam porque ele não tinha sido acionado. Não podemos avaliar ainda os danos. Mas estamos muito preocupados com os pescadores. Eles dependem da natureza — diz Aciolly.

A origem desse desastre é um mistério, mas o perigo de danos está bem à vista e ainda não foi tratado como deveria, diz o professor de química da PUC-Rio Renato Carreira, que trabalhou no trabalho de recuperação das áreas atingidas pelo vazamento de óleo na Baía de Guanabara, em 2000.

Ele destaca que já deveria ter sido iniciada a articulação do acompanhamento da extensão e da persistência do dano.

— Na Baía  de Guanabara, quatro anos depois do desastre,o óleo ainda era visível no manguezal de Suruí. E bem provável que até hoje esteja lá. O que esse derrame no Nordeste nos mostra é que continuamos despreparados. O foco precisa ser nas consequências — afirma ele.

Ontem, novas manchas de óleo chegaram ao norte de Sergipe, na Praia de Pirambu, a mais importante do Brasil para desova de tartarugas, mas nenhum dano aos ninhos foi reportado.

Fonte: O GLOBO

 

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